comentário sobre o brasa enganosa, de guilherme gontijo flores

18:11




admirável esse guilherme.

conheci o autor de brasa enganosa há mais ou menos um ano e meio. lembro que comentei, na época, que o blog escamandro (o coletivo virtual que ele edita com outros três poetas) possuía uma maturidade crítica que me impressionava. não havia por ali a menor intenção de louvar ou desmerecer alguém tão só por suas conexões afetivas e tampouco havia resquícios de autocomplacência. me impressionou mais ainda a similaridade não diria estética, mas política de nossas visões poéticas: apesar d’eu ser particularmente mais imaturo como pensador da poesia (inevitável devido às diferenças algo consideráveis de idade), percebia no jogo do guilherme um ímpeto de arruinar o eu-lírico, quebrá-lo, dessemelhá-lo, transformá-lo que eu também possuía. é natural que ele não obedeceria a uma tola ordem iconoclasta, algo que hoje só tentamos nas primeiras experiências com a linguagem ou quando trabalhando num projeto que a justifique. o pertencimento de certas características em sua poesia, pelo contrário, aponta caminhos semelhantes na tessitura de cada poema. trechos como “FEIXE/invisível/do olhar/lume que lastra/esse rastro/de gravidade” ou “com a fé de que tudo acabaria/sem o toque acrobático do acaso/ - se soubesse que tudo é calmaria/que tudo é pele tudo é plano & raso” são bons exemplos, aparecendo em momentos opostos do livro.

aliás, o livro. fiquei muito contente quando soube da publicação do brasa enganosa. não por considerar o guilherme como amigo (até porque a amizade nasceu da troca de leituras), mas por saber da importância que esse lançamento teria dentre as produções mais recentes da poesia brasileira. sabia da vitalidade dele, pra ser mais exato. qualquer um percebe como o mundinho (mundinho mesmo, pequeno demais pra ignorar um diminutivo) literário vem se dividindo em grupos que têm como principal hobbie as acusações e calúnias recíprocas. a poesia do guilherme, como as melhores de sua geração, ignora tudo isso. ele não escreve para ganhar o respeito de ninguém e não deve nada a qualquer poeta morto, vivo ou zumbi. prefere rir disso: “como arlequim/que em tempestade copos/d’água colhe/do pranto apanha-se/a pérola do riso”.

quando dedica à sua filha o belíssimo no que vejo (destaco este trecho: na íris que não vejo/carrego/comigo/a fruta que promete/ser contra mim/negar-me no âmago de mim/anticanção de mim/ mesmo/que germina de mim), o leitor compreende a força que esse cara tem para ampliar o sentido de suas analogias. na contramão de um sentimentalismo possível, sempre sedutor nestes momentos, ele escreve (ou filma) essa fotografia como se a carne por um momento virasse papel, “incrustada na página” sob os signos. incomum, mas até previsível vindo de alguém que só aceita a boa poesia como homenagem.

muito legal também o diálogo com roberto piva e walt whitman na seção "forma da voz", a que talvez guarde os melhores do livro. os sonetos são muito felizes. tanto os óbvios, como a resivor e à crítica genética, quanto os secretos.

pra encerrar: a editora patuá tomou mais uma decisão acertadíssima ao publicar o brasa. reconhece um projeto de livro muito bonito, arriscando suas fichas nesse encantamento nada enganoso, e divulga merecidamente um novo nome que tende a se tornar cada vez mais respeitado.

eu e a poesia agradecemos. 


_Gabriel Resende Santos_

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