poema novo sobre palavra antiga

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Dan Elijah Fajardo

pois era preciso ter vergonha dessa palavra,
senão o rosto pegava fogo, a chama entrava no cérebro
e te deixava mais burro: depois uma puta dor de cabeça.
nenhuma faca afiada o suficiente para cortar teu sangue
solidificado, as folhas voando de vergonha, o último confete
entrando por acidente no olho salino. os piolhos davam as mãos
e brincavam de mímica, iam ao cinema dos teus cabelos
ver um faroeste. alguém sapateava com força no andar de cima,
o pedacinho de gesso caía descontente sobre alguma lagartixa
intrometida, disfarce comprometido. o galho da tua árvore genealógica
quebrava. sempre que você aparecia em casa e dizia a palavra,
teu pai coçava a cara e te desprezava com o nariz. ainda é cedo,
já é tarde, teu futuro tão aceso quanto essa noite sem lua. a juventude
caindo aos poucos da boca. língua e dente reunidos no acesso das fúrias
e das nostalgias órfãs. o lábio agitado, trêmulo, praticamente convulsivo
balbuciando a palavra que te proibiram. a raiva não era o bastante
para demolir um edifício. a raiva não migrava para o país mais distante.
era preciso sentar, enrolar a cauda, fitar com falsa inteligência um espetáculo
de vida. e a palavra se enroscava na garganta, acorrentada, aflita, até não aguentar mais
e morrer, flutuante, no estreito silêncio da tua expressão.


_Gabriel Resende Santos_

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