intruso

13:08



fazia muito calor, entrei pela janela.
nada me impediu, nada entre mim
e o além da janela. além encontrei
mais calor e mais luz, o ar não aquecia
os ponteiros dos relógios. van gogh na parede.
sobre a mesa copos de bar, uma garrafa pet,
uma planta falsa, um pote para tragédias gregas,
uma carteira gripada: dez reais e dois cartões,
pouca utilidade e muita bagunça. mas então
os livros empilhados. maravilha. entre algum
tradutor mexicano e um livro de mitologia
repousei sem ter o que temer. minhas asas
encostadas na borda leve de ariel e meus olhos
vibrantes sobre a lombada de um k. dick. esconderijo
quase perfeito não fosse o detalhe das mãos trêmulas que,
autônomas, mães-proprietárias de um corpo vazio e estranho,
tomam ligeiras a primeira borracha ou madeira quando desveladas
pela triste figura (ah os tempos dos clássicos). o equilíbrio?
verticalmente revi todos os meus ídolos e vilões, um a um,
enquanto o chão quase limpo ansiava pelo momento de quebrar
os dentes que imaginei ter. riu a esperança, o vizinho verde,
quando sobre minhas costas o golpe final foi dado com a necessária
fatalidade de um golpe final. doeu e nem se compara com g.h., tenho
orgulho de dizer. aqui o carrasco era decente: provavelmente porque sabia
o alcance de minha cultura, destinou-me a água sanitária. grato, moço,
sacos plásticos me dão claustrofobia.

_Gabriel Resende Santos_

You Might Also Like

0 comentários

Popular Posts

Like us on Facebook

Flickr Images