segundas

02:15




no centro do Rio de Janeiro,
bem onde os velhos escondem
o heroísmo em suas barrigas,
os filhos do mundo acordam e abraçam
aquele medo e aquela vontade aprendizes,
mãos dadas no intestino da metrópole.

nada tão preguiçoso, tão impassível,
tão antiquado quanto o rosto acnoso
da ferramenta que boceja e desperta. os
vendedores invisíveis de coisas discretas
são os mais velozes em decorar de personalidade
as ruas nunca vazias. fique atento com os adjetivos,
grita algum doido, embora com cuidado para não abalar
os sebos que ainda respiram. revivem as mulheres
subindo nos seus sapatos, sandálias, meias, restos de meias
e conjurando alguma tempestade que acabe logo com
todos os pássaros imoderados do bairro.

avisando os desavisados está a velhinha na porta do cinema,
vendendo flores e espíritos pequenos para os interessados
no novo filme do sean penn. as estátuas morrendo de inanição
esperam trocados que paguem ao menos um sanduíche
vegetariano. gravatas vêm, sempre sem tempo para céus azuis
e estátuas, olhando a todos com censura e receio, baseadas
em suas recém-compradas sabedorias. gostariam de ficar nos
édens das copacabanas, tijucas, penhas, sepetibas, mas o saber
explicou que o conforto é nocivo para os tecidos inteligentes.

a lombriga de ferro, velha esfera metálica, é a hemorragia
que deixa deliciados os homens das janelas. ninguém compra
o prazer de entardecer lentamente nos cantos mais obscuros
e cinzentos da máquina, seus movimentos acompanhando
os passos humanos, inumanos, ridículos. os ratos de laboratório
passeiam nos labirintos, fingindo que procuram o centro cultural,
a biblioteca, o consultório do dentista, inocentemente perdidos
no vulcão de carcaças. ninguém sente pena dos reféns
quando o tempo volta ao descansar dos relógios:

escolas fecham as asas, estudantes uniformizados
esquecem as cabeças que refutam grigori perelman,
e o trânsito de sacis e caiporas enche ouvidos na praça floriano.
pais recebem com mãos cheias filhos de mãos vazias, carregando
mochilas de culpa. peixes vivos contam os segundos para
partir sem companhia. as roupas se retiram para debaixo
dos lençóis, para dentro dos armários, para fora das peles oleosas.
e algum garoto sem nome e sem profissão, preso em si mesmo
desde que enxerga, fura a noite mais uma vez engolindo sem vomitar
todo o lixo que não foi varrido no centro do Rio de Janeiro.


_Gabriel Resende Santos_

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