manhã de música

23:42


Georges Braque

do violão pingam gotas de suor.

o esforço não é pouco. o sol
ajuda. condições precárias de saúde,
zona desprivilegiada, ruas sem movimento,
pedintes destreinados. o barulho inteiro
gota e nota.

amanhecer tocando é bom. ramones,
baden, iron maiden, outras coisas.
o eco da guitarra mexicana deve uma seresta
ao casal que se desfez. sem baixo ou tambor pra conversar,
uma buzina é ilogicamente oportuna.

quanto sacrifício, a garantia que subestimou
o sadomasoquista. entranhas expostas, prazer da e na
vibração. cada dedo na ferida geme
um villa-lobos de lacrimejar.

sem susto. tudo a mesma coisa. até o susto.
um surdo, barriga banal e alma flácida
os nervos em frangalhos depois de dante, chega
atirando migalhas de bronze.

dia ganho por enquanto.

sereno, em ritmo de balada, enxuga as gotas
da testa. descansa o músico, madeira
velha e dípode, em seu braço único.
articulações que precisam de troca.

a fantasia de bronze nunca foi o bastante,
mas o aço está bom. o óbvio, polivante som (grito?
riso? sussurro?) serve de reza antes da firme mastigação
dos seis dentes afinados.

boca cheia, otimismo renovado,
até pensa que o dia está pra beatles.

retoma de onde o suor parou.


_Gabriel Resende Santos_

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