guardo

22:36


Simon Goinard Phelipot

menina melancólica,

talvez seja a última carta. desisti do gênero faz tempo, quando minha imaturidade pedia por direções simples. é que a paixão sempre me faz voltar. olhe, direto ao assunto. esses besouros que te rasgam, eu os conheço. em celulose e carne. camuflados nas paredes de universidades, experimentando os primeiros sonhos, vestindo impenetráveis capas de chuva. eu conheço os ruídos dos besouros, seus sistemas de defesa, a ameaça que nunca repousa. também conheço o prazer de alimentá-los. pois é. eu sei que no fundo sou um réu tosco, a ser julgado pelos meus crimes contra os corajosos. mas nem isso me tirou a beleza dos palhaços. cruéis, canibais, cheios de carvão na língua, sei do massacre que os insetos planejam. feriado após feriado, carta após carta. os besouros incomodam, menina melancólica, isso é inegável. incomodam pra sempre. empurram com suas patas peludas todos os tipos de corda, remédio, calibre, loucos para alimentar-se de nossos pedaços. mas somos nós, os fracos, os que escolhem temer os besouros pelo que profundamente não são. porque o espelho diz que somos o dedão de rhodes. e temos dentes. e asas. menina, suas asas não são as maiores do distrito? não deixe o poço dos besouros abrir-se desdentado. levante-se. dê o murro melancólico, corra e se esconda no temporal, ligue 9090insetocarioca, esqueça. o ruído dos besouros embora terrível, embora vicioso, é tão baixo que dá pena: sintonize no choro das cigarras. ora, menina melancólica, uma gotinha que cai do seu olho é o suficiente pra afogar a população mundial de besouros. é o suficiente pra me afogar também, menina tsunami. exército de uma menina só, não se aliste em guerras inexplicáveis. poupe-se. olhe bem, mesmo você não sendo a esfera metálica, olhe bem pras janelas e portas sombrias e perceba que essa escuridão clara, esse chiaroescuro, ah, menina melancólica, eles precisam de você. precisam de sua presença tímida e sem fôlego soprando o sucesso da palavra. é isso: precisam de seu fracasso muito bem-sucedido. os próprios besouros precisam do seu fracasso muito bem-sucedido. eu que preciso desse mesmo fracasso, menina, me contento em sonhá-lo: dos melhores que não tive.

agora, se nada adiantar, se outros fracassos começarem a se acumular com músculos potentes e letras maiúsculas, se o canto das cigarras comover o sangue até demais, por favor, abra as enormes asas e pouse em minha janela. estou sempre à espera de meu próximo encontro com as mariposas que amo.


beijo,

_Gabriel Resende Santos_

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