dividida

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pequena moça,

         eu sei que não esperava minhas mãos vazias. não hoje. hoje era manhã de flores ou versinhos embrulhados nos bolsos. tudo certo que minha vontade faltasse, mas faltar o tributo é imperdoável. reconheço suas mãos trabalhadoras, dedicando-se ao cultivo dos amantes sem cansar, e por isso me envergonho em dobro. as raízes foram tão fragilizadas pelas enchentes de verão, as pétalas estateladas e desiludidas. coitadinhas. você ali dando apoio, serena, implacável, firme em sua pequeneza, enquanto eu me ausentava por temer os seus trovões. você jura me fitando com a cara pesada que eu não mereço sequer cruzar vistas contigo. quer dizer, você não fala, você é muda, mas tua piedade me discursa todos os discursos. se você soubesse o amor nas suas feições tranquilas, se você soubesse a inteligência no teu andar imperfeito, quão sonoros os seus diálogos com o meu silêncio. antes de dizer adeus, por favor, tenha paciência e leia minha breve confissão. é só uma dor. a dor de de sempre faltar uma parte de seu pequeno corpo nos meus abraços. parte dele está perdido no sul, eu sei. você deixou suas pernas lá faz quatro ou cinco anos. teus dedos, por exemplo, delicados e suaves, eu nunca os encontrei. vivem em brasília. tuas orelhas eu percebo de vez em quando nos sebos e cinemas, as orelhas quase mecânicas que me escutam antes de todos. e teu cérebro, que responde aos dias ruins e bons com a mesma paixão, vivendo entre as paredes das academias, dos apartamentos, teu cérebro moderno. a língua muda que vocifera carne ensaguentada nos cadernos. a língua cujo reencontro sempre me anima. tua pele antiga e musical na grande máquina. e a alma. metade da tua alma repousa em árvores de são paulo. metade irmã, fiel, tão necessária em noites de fuga. a outra mora aqui perto, mas um pouco longe. a metade boba, adolescente, querida. ah, pequena moça, sei que um dos teus pais morreu. as orelhas contaram. mas não chore mais. tenho no corpo as queimaduras das tuas lágrimas, esperando a hora de te perder de vista. porque sabe, querida, essa é a hora de abraçar o que resta de você. não me perdoe pelas mãos vazias, mas me perdoe por faltar força para manter teu corpo. o consolo é saber que uma parte de ti está sempre por perto: tua natureza imprecisa é a única coisa que me guarda de te perder inteira. assim eu vivo, com um pé, uma alma, um umbigo. minha sombra virando fresta de luz sempre que reencontra alguma sílaba do teu nome impossível.

é isso. mais coisas já contei à alma. os ouvidos e braços que descubram por eles mesmos.

adeus.




_Gabriel Resende Santos_

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