um engenheiro

21:29



ao Nicollas




Acordar. A prova é difícil. Estudei pouco. Muito pouco. Os livros não ajudaram. Biblioteca ruim. Acordar e saber que estudei pouco. As roupas não obedecem. O tempo gargalha. A prova é difícil. Mas a possibilidade da prova ser fácil existe. O professor é novo. A matéria é difícil e o professor é fácil. Fácil por ser novo. A prova pode estar mais para o professor e menos para a matéria. A prova pode ser uma gargalhada. O professor pode gargalhar. Os livros são sarcásticos. E as roupas não cabem. Ontem eu estudei. Podia ter estudado a semana inteira. Não estudei. Era preciso dormir. Era preciso estudar também. O tempo não estuda. Por isso ele ri. As roupas cabem. O tempo diminui a risada. Eu brinco. Que o tempo errou. Eu farei a prova. Eu terei uma nota. Que é imprevisível. A prova é difícil. Mas eu sou mais difícil. A prova não tem dificuldade perto da minha. Isso eu descobri hoje. Ainda não tenho certeza. Aprendi que as coisas levam tempo. A mochila é pesada. A prova é pesada. A aula depois da prova é leve. Apenas a prova é difícil. E carregar a mochila. A mochila me entorta. Acordar e saber que a mochila me entorta. O tempo empurra. O elevador é neto do tempo. Ou empregado. Não estou atrasado. O elevador atrasa. A prova é difícil. As aulas foram um atraso. O tempo chega. Ele parece um elevador.

Saio do tempo. Estou rindo. Por dentro. Por fora seria ridículo. Estou rindo. O tempo perdeu. Não estou atrasado. O que pode dar errado. Claro. A prova. A prova é difícil. E o ônibus. Tinha esquecido dele. O ônibus me odeia. A prova ainda não. Mas vai odiar tanto quanto o ônibus. Ou mais. Não sei. Não odeio o ônibus. Apesar de tudo. A prova eu odeio. Não a conheço. Eu disse. Sou mais difícil do que a prova. É mais fácil odiar o professor. E o chão. A mochila não entorta o chão. Gostaria de ser chão. Aí o peso seria maior. Mas a prova. Nada tem maior peso que a prova. Grau dois. Último semestre. Essa não é a primeira. Fiz outras provas. A matéria não era nada que eu não tenha aprendido. Mas sei que essa será difícil. Ao contrário das outras. Eu sei a matéria. Que não é mais fácil e nem mais difícil. Eu sei a matéria. Acertei tudo no teste. Acertei tudo nos trabalhos. Sou o melhor aluno. Sei que a prova é difícil. Ninguém me disse. O professor não disse. Ninguém viu a prova. Eu sei o que ela é. Eu não sei direito o que sou. O melhor aluno. O difícil. Que espera o ônibus. Que me levará a uma prova difícil. O ônibus não chega. Prefiro caminhar. Nem assim me atraso. O tempo está errado. O tempo me obedece. A prova também me obedece. É difícil. Mas obedece. O caminho é longo. Meus pés são longos. Isso faz sentido.

Caminhar. Começa a chover. A chuva é forte. Dói em dias de prova. É mais difícil enfrentar uma prova difícil. O céu cinza mexe muito comigo. Esqueço. A chuva não me atrapalhou. Não até agora. A prova é difícil depois de agora. Tenho certeza. Então a chuva vai atrapalhar. Só quero pensar na prova. Mas a dificuldade é pensamento. A chuva aperta. O ônibus não tinha chegado. Faz sentido me molhar. A prova é difícil. Água nem tanto. O tempo é meu inimigo. O rio. O rio é meu amigo. Olho o rio e percebo. O rio é meu amigo. Água e água transbordando. Cheiro de esgoto. O rio é fundo. Não sei se é um rio exatamente. Uma queda seria fatal. Mas o rio enche rápido como um rio. Começou a chover agora. A água. A água é uma matéria. Já estudei água.  Já estudei rios. Não nesse sentido. Não nesse sentido de água e de rio. Nem o cheiro de esgoto. A prova é difícil. Mas eu sei que irei bem. Estudei pouco. Mas irei bem. Melhor aluno. Domino a matéria. Já estou aprovado. Tirei a nota máxima em todas as outras provas. Mesmo que eu tire zero. Mesmo que a prova valha mais do que as outras. A média não tem como ficar baixa. O tempo chora. Eu sou mais difícil do que a prova. E a água sabe disso. O rio sabe disso. Eles me aplaudem. Eu e a água podemos guardar segredo. Não parece tão cheio. Vou ao encontro dos que me aplaudem. Dois sorrisos. Não está tão cheio. As pedras do rio. Fortes. Duríssimas. O crânio não resiste. Lá se vão os cálculos. Lá se vai o sangue. A água e meu sangue. Nosso segredo. O esgoto esconde tudo. Até o cheiro de morte. Estou perto o bastante. Sinto o cheiro de morte saindo do sangue. O rio enche cada vez mais. Não tenho o que lamentar. Melhor aluno. Família orgulhosa. Pais orgulhosos. Flutuo.



_Gabriel Resende Santos_

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