incentivo (ou 34 tentativas mortais)

01:52




vê a faca?

ali. na cabeceira.
à luz da janela,
cegante.

faca-
possibilidade.
esse ferro descolorido tão seguro e potente brilharia menos
canino morto na pele maltratada da mesa
se hoje não fosse mais hoje..

o que te impede agora?

no máximo
um piscar de receio.
a faca observa muito bem as suas dobras e as suas têmporas 
todas as partes possivelmente vermelhas do seu fardo.

qualquer polissílaba
te mataria. um haikai. um ai. a faca não é lírica.

e os homens são grandes trovadores.

contorcem-se esperando as perfurações. o braço reage ao
cheiro pontiagudo. movendo-se nos músculos. interditando
os itinerários dos glóbulos burocratas. os ponteiros hilários
do relógio contam piadas sobre o tempo preciso
que te resta.

a faca desconhece todos os tempos. o dela, o seu, o dos relógios, o do brilho.
mas você sabe exatamente o seu tempo.
as portas batem. violentamente. punhos incontinentes
deslocando os ossos da mão como os poemas da terra.

a agitação suga os seus tímpanos. a lua te explica
que a estrada nunca é reluzente.

antes que os barulhos desistam,
antes que o alemão fuja da língua canina,
prateado e à luz da janela,
você segura o cabo com a força que só lhe era destinada nos instantes de criação.

eu me interrompo aqui.


_Gabriel Resende Santos_

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