quando morrer

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Perguntaram-me como seria meu suicídio.
Bom, já me decidi. Estava procurando uma forma honesta
de me matar sem doer muito em terceiros. Penso seriamente em morrer
poeta. Morrer poeta, perguntaram-me, como assim morrer poeta.
Ué. Morrer poeta que é um jeito prático de morrer. Assim
é como se você subitamente perdesse a respiração. Ou melhor:
desaprendesse a respirar. É assim que quero.
Ei, morrer poeta não pode. Isso é morrer burro. Morrer doido. Que morte patética
morrer assim. Isso foi porque você não seguiu no curso técnico. Porque entrou nessa
palhaçada de alexandrino e não sei mais o quê. Você pensa seriamente em suicidar poeta? Sinto asco de um suicida poeta. As pessoas rirão da sua morte
e lamentarão que você tenha buscado tão pouco em sua vida. Você sabe que
seus amigos ficarão satisfeitos de ter te abandonado. Era poeta, eles dirão
envergonhados. Toda a poesia que você escreveu vai virar rodapé de jornal. Os poucos
que tiveram o desprazer de te amar vão te substituir. Vão criar para si mesmos a confortável ilusão de que você nunca existiu. Que você portanto teve o bom senso
de preferir não nascer. Morre poeta, mas nem sabe se é um poeta bom. Não sabe se agradou a poucos ou muitos: é só mais um. No seu funeral não dirão o quanto você se dedicou àquilo que mais amava. O constrangimento será geral. As pessoas se calarão para não rir dos seus gostos.
Você se tornará um ESQUECIMENTO. Eu mesmo irei te esquecer assim que seu corpo começar a deteriorar. Você não sente medo?
Eu te responderia. Fiz o que pude. Não destratei meus amigos. Não roubei
as esperanças dos familiares. Poucas pessoas me viram colérico. E se lamentaram
lamentaram por eu falar baixo. Tudo que radicalizei eu o fiz em versos. Ninguém
perdeu um olho. Ninguém queimou a garganta. Não quebrei a lei. Tudo
certo que me culpem. Não digo que estão errados. Nada fiz, mas todos têm
total razão. Não abracei alguns amigos tanto quanto queria. Fui rejeitado
e rejeitei. Quis sob as colchas uma solução e encontrei mais problemas. Quem sou
para julgar os pensamentos que me detestam. Sim, a glória não me espera. A memória
também não. Ninguém pretende se lembrar com ternura de alguém que passou
tão batido. Resta aos que me amaram virar sombras. Por consideração, eu
te responderia. Mas veja. Eu tenho o queixo pesado de Maiákovski. Minhas sobrancelhas andam ganhando pernas para caminhar na praça. O mundo do meu estômago está em guerra mundial. É um pouco tarde demais para te responder. Se ainda fosse ontem. Ontem as nuvens estavam em outra posição. Os amigos distantes me mandavam mensagens de carinho. Mas hoje é tarde. A terra me disse que hoje é tarde. Também é tarde demais para morrer de outro jeito. É tarde para querer outro jeito.
Agora, por favor e sem choro: passe-me essa corda.





_Gabriel Resende Santos_

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