cadernos e metais/esferas metálicas/menina

21:29



à melhor amiga 



você.

as esferas metálicas
correm trazendo
rugas espinhas calombos cicatrizes
calvícies perversões vitórias derrotas
e dívidas
e dúvidas

as esferas metálicas metametálicas
ruindo cortinas
óculos de proteção
caixas de fósforo
mochilas abarrotadas

seus olhos geométricos
espalham as víscerassentos
onde se assentam os futuros contratados
e futuros suicidas. cada mão extensão de outra mão
cada perna filha de outra perna
cada passado passando-se num
futuro cego.

aquele chora: perdeu algo
alguém o filho a moeda o dia

aquele gargalha pois a hora é boa:
amantes meditação notas dez

aqueles outros calam:
que o horizonte suavize o desemprego

aquele apertando um profundo nó
desata e ri as crateras do lábio

aquele outro se outra: descobre não ser o maior Outro e
infeliz se guarda para os triunfos imaginários

embora os eles elas its
aqueles aquilos e alguns
faces pálidas mais marcadas
que as palmas das mãos
desvie o rosto e olhe olhe mesmo
olhe com todos os nervos que tem
a menina discreta sentada no fundo
com sua roupa que podia estar
impecavelmente branca caso não fosse improvável
depois de certo tempo. olhe com todos os nervos
essa menina que não lhe diz nada
anotando em seu caderno
as perguntas e respostas que você sabe
não se conter na carne de metal.

perguntasrespostasperguntasrespostas
em questionários que reprisam
a sinestesia congelada dos primeiros
períodos dos rostos ocultos da psicodelia
de fim de semana dos amigos que viram
sombras das flores de concreto
desfazendo suas retinas em pó. 

veja a menina rabiscando com dedos de vidro
quebrando
melancólicas
melódicas
dramáticas
as palavras obesas e suas iniciais
perdidas rasgando o tempo
a derrota o erro a pústula nos ombros
o furacão de humor
depondo no papel pautado
a sua alma cifrada. clave de sol precedendo
mais um fracasso mais uma rejeição
da mesma menina que diria ser nada
física se bióloga ou química.

ah, você entende. todas aquelas pessoas
e a metafísica de estar morto-vivo. todas aquelas
pessoas e essa menina essa única menina com o jaleco
branco e os músculos exaustos. a vista focada nos próprios pés.
os lábios sem se mexer. ela confessa:
não sinto
não me acho grande coisa
sou menos que isso.

olhe a menina de novo depois
dessas irrelevâncias. olhe os
lábios recitando cada sílaba com
a crença ingênua nas próprias bobagens. você cogita
contradizê-la abraçá-la repetir cem vezes que ela
é maior do que imagina. mas pra quê
secar sua saliva com essa menina teimosa.

veja: o dia responde por ti
trancafiando imagens na esfera metálica pesando sua aura
nas boas e más intenções no trocadinho nas rodas
no rosto quente do ambulante no relógio da praça. nesse instante
em que os coadjuvantes da vida procuram seu protagonismo
e sustentam seus corpos com a restante esperança nesse
instante repleto de braços mãos pés joelhos orelhas
saídas entradas estradas pisões ventos quedas poças
nesse instante de homens chamando mulheres
e espíritos chamando corpos
nesse instante sem antecipação
por detrás dos olhos congestionados de luz
a mesma menina em seu doce cinza se torna
o coração de todos os metais.


e você sorri.


_Gabriel Resende Santos_

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