Crise

23:30



De tão modesto era econômico até nas palavras. Quem não o conhecesse diria que era mudo. Quem o conhecesse talvez dissesse o mesmo. Surdo-mudo, porque parecia não ouvir os cumprimentos de ninguém. Lógico que não se esperaria um “Bom dia” do mudo, mas havia maneiras gestuais de responder. E todos queriam sua retribuição sincera. Era louvável a boa vontade de disseminar dias bons pela vizinhança. Ora, o que podia fazer era mexer a cabeça, pelo menos. Uma piscadela. Um murmúrio. Mas nem isso. Totalmente não respondia. Sua face não se crispava, suas mãos não reagiam. “É retardado”, arriscou uma senhora do quarto andar. Talvez fosse.
Convencionalmente na grande literatura que se fazia ontem, um sábado de calor, seria necessário estabelecer social e geograficamente os educados senhores e seu impassível antagonista. Ou eu estaria mentindo para me fazer de transgressor. Não interessa: isso cansa. E as discrições (não descrições) possuem a famigerada capacidade de subverter os caminhos antevistos pela infeliz e confusa criatura que convencionou-se chamar autor. As discrições (não descrevem, entendam) introduzem-no em teias de paradoxos, receios de hermetismos, veredas estéticas. Labirinto borgiano com o qual seu cérebro vulgar, matéria feita de Beckett e Coetzee, não esperava coincidir. Digo o que faço (escrevo). Engano, por corardia ou covargem, que estou sabotando uma tradição e defendendo uma licença que não invalida. Assim o surdo-mudo pertencerá no mesmo tempo ao chão, ao céu e ao que a circunstância da leitura criar. Enquanto eu confortavelmente permanecerei no meu Altar Autoidólatra, com o perdão do pedantismo e da aliteração, orgulhoso da afronta que te faço.
Right-right. Seguindo minha própria lição, donde os educados senhores podem vir? Ora, os educados senhores poderiam vir de condomínios fumacentos e luxuosos no Éden. De alguma pensão imunda de um bairro sem nobreza da sua cidade. Olhe: uma parábola profana, lautreamontiana. Olhe: um conto mais fonsequiano. Ah, já estou abusando da paciência do surdo-mudo. Voltemos a sua breve história antes que outros a narrem e sejam aclamados mundialmente por isso antes de mim.
Não era por causa do diagnóstico amador de problema mental que o surdo-mudo deixou de ouvir – ou não ouvir, se for de fato surdo - os cumprimentos de sempre. Bom dia, boa tarde, boa noite, até mais, fala parceiro, fala xará, tchau tio, ei mermão, qual é mano, tudo em cima, como vai o senhor, adeus, caralho o cara não diz mesmo nada. Nada. Que situação vexaminosa, ominosa, escandalosa. Ninguém mais dormia, todos carregando inconscientemente o peso da incivilidade surda-muda. Numa reunião com o síndico, que pode ser tanto uma manifestação calva-celeste de cinquenta anos quanto um ciborgue em crise existencial, ficou decidido que eles corrigiriam as maneiras do surdo-mudo por mal ou por bem. Por bem, precisavam saber se ele tinha filhos, sobrinhos, pais, tios, qualquer tipo de parente ou amigo. Planejavam descobrir algum detalhe de sua vida pessoal que explicasse o seu silêncio. As investigações até deram algum resultado, mas nada que pudesse ajudar na situação constrangedora dos condôminos. O surdo-mudo tivera pais, filhos e esposa. Mais-que-perfeito. Ah, que vá por mal.
Munidos de cadeiras, bastões, revólveres descarregados e punhos cerrados, eles foram em direção ao local em que o surdo-mudo costumava se fixar. Os pobres diabos notaram a criatura recostada na porta do estacionamento! Na porta do Olimpo! O miserável estava ofendendo a honradez daquelas figuras magnânimas e gentis. Em relação aos instrumentos da justiça, é válido lembrar que eles podem ter trocado as cadeiras e bastões por cacetetes, pedaços de pau, garrafas de vidro e outro tipo de bastão, o de beisebol, se estiverem nos estados unidos ou Japão, se não estou enganado.
Quebraram todos os dentes que lhe restavam. Todas as costelas. E ainda pisando nos indefesos pés descalços. Se não faço uma descrição mais crua e violenta, com tantos novos prosadores malditos por aí, é porque não há necessidade disso. Pelo menos aqui. Mas posso confirmar, desculpando-me de antemão pela falta de sutileza, que o jovem do 503 (ou da jaula dos chimpanzés no Zoo do Rio) acertou uma coronhada na nuca do surdo-mudo. A vice-síndica por sua vez furou as bochechas do vilão com a ponta afiada do guarda-chuva, presenteando com um sorriso de coringa aquele sujeito de maus modos. Sujeito de maus modos que, estatelado em um chão-nuvem, ousava manter o ar resignado de sempre. Já leram Os Anões?
“Mas que palhaçada! A gente dá uma surra nele e o miserável continua sem falar porra nenhuma. Vamos matar esse filho da puta” refletiu o jovem do segundo andar numa linguagem mais brutalista. “Oh, infame entozoário de silêncios abjetos! Criatura vil e torpe! Sórdido alentador de trevas antifonêmicas!” se você estiver pensando em semi-aristocratas do início do século passado. Enfim, não restou quase nada. Só o silêncio.
Satisfeitos com a lição de etiqueta aplicada no marginal, felicitaram-se e subiram aos seus apartamentos luxuosos/latrinas luxuosas para um merecido descanso. Convencionalmente, na literatura que se faz hoje e provavelmente na literatura que se fará amanhã [estradas de supostas inovações], uma reviravolta se daria ou alguma coisa de bastante importância sugerida, subentendida ou escancarada no fim do conto/novela/romance. Mas isso seria impactante e/ou coerente. Primeiro, eu não quero impactar. Segundo, se meu texto inteiro até aqui não foi coerente, por que o seria a esta altura: logo no último parágrafo? Se fosse pra ser assim, teria terminado o filhote lá em cima, com um medíocre “Enfim, não restou quase nada. Só o silêncio”. Ficaria bem mais coeso. Mas não. Eu acredito na beleza repugnante da decepção: eis que o surdo-mudo, sem antecedentes, sem pretendentes, modesto, econômico, olhos cor de chão, permaneceu onde estava. Da maneira que estava.


_Gabriel Resende Santos_

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