morte de um replicante

22:47

o tecido do céu rasgado 
pelos dentes de tubarão 
cáries roubadas da empresária camelô
patroa me gritando alguma inverdade nublada
nos dias de carnaval banzeiros
se alguém tivesse coragem de transliterar o deserto
a chuva desistiria de nossa cidade
do descalabro dos solos
discos de areias como canais lacrimais
chupando e empurrando gases mortais
para exércitos nazistas de lepidópteros
inadestráveis novas eras sem chão
pisando novamente o carpete das nuvens
meus amigos robôs me transfundindo sangue
enquanto eu penso no neón de las vegas
nos pôsteres da grace kelly tesouro único de meu avô
na diretora luciferina mastigando juventudes
nos cabeludos e fedorentos de sempre
nas pueris menininhas chafurdadas por paus por paus
nas lambisgoias genocidas cometendo crimes capitais
nos pixels furtando idealizações masturbatórias
no terrível cheiro podre que foge dos peixes pelintras nas vielas
nos dias em que fui metralhado por ressonâncias magnéticas
na pobre coleção de camisinhas que só aumentava a cada dia
nos infelizes pais que apostaram no espermatozoide errado
nos disfarces afrodisíacos das namoradas dos amigos (ou amigas)
nas leituras públicas de poemas gagos
no óleo que derramaram sobre os fetiches sexuais e também carbonizados
no sono tranquilo dos cães que em nada pensam além dos lagos repletos de patos
nos projéteis arrebentando portas até atingir sonâmbulos indefesos
na água de repente verde de repente negra de repente vermelha de repente vinho
nas flores que entram pelas janelas disfarçadas de percevejo
nos pêlos miseráveis pedindo moradia abrigo copo de água
nas sucessivas derrotas de um país da segunda divisão
no alienígena vestido de cozinheiro italiano
na sombra sobre o chão sobre os olhos dentro do copo de música
nos sonos vadios de capas de chuva órfãs
nos panfletos sobreviventes da terceira guerra
nas rachaduras vermelhas do subsolo enfermo
nos meteoritos carnavalescos explodindo fogo e purpurina
no suicídio-assassinato de um irmão xifópago
na cena do crime repleta de digitais e perfume francês
no vidro esmeralda observado por curiosos viageiros
no jogo de loteria vencido por quem apostou 12345
nas diástoles em câmera lenta dos filmes de horror naturalistas
no impulso do atleta sexagenário na janela do décimo quarto andar
na fúria com gosto de pimenta engolida pelos funcionários públicos
nos lixões movediços que engolem quinquilharias ex-tecnológicas e sonhos
nas sessões de psicanálise onde mentiras explicavam mentiras
na mesa velha que resguarda mãos vivas e mortas
na mosca que aprendeu breakdance e morreu tragicamente na escola de dança
nas tintas púrpuras que se misturam com as secreções purulentas
no inferno de java corrompendo os downloads que a solidão fazia
no suco de saliva que os bons homens aprenderam a suportar
na bochecha rubra do garoto que prescindiu da escola por causas nobres
nos yarbles de billy boy sendo despedaçados pelos droogs rivais
nos estupros imaginários que os homens faziam ao ver sugar kane cantando
na estrela decadente cuja luz passou a servir de mata-mosquito
no dicionário de termos inexistentes no qual eskysytysyun acaba de ser incluído
nas orelhas quasimodescas dos lutadores de vale-tudo
nos carrões luxuosos dos comerciais luxuosos na tevêzinha de oito polegadas
na mordida sem saliva que o administrador-cafetão pediu de sua secretária-prostituta
nos gritos de guerra do revolucionário macintosh contra a novidade
no som incivilizado que ecoa das metrópoles megalópoles hiperlópoles
na reencarnação zarathustriana da formiga assassinada em alguma chuva de verão
no resto de pano que o tato jurou esquecer entre suas memórias
no fôlego enfim cedendo para o ponto final
no transitório pedindo ajuda do infinito
na palavra encontrando o instante em que o pensar desmaia.

_Gabriel Resende Santos_

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