carta aberta ao criador

18:59



Sim, sei que sou uma criação sua.
Não nego, nem jamais vou negar.

Durante décadas angustiadas, perguntei se poderia, quem sabe um dia,
largar as linhas que me perfizeram (ou imperfizeram?) e transformar costela em sabor virgem.
Daria mais que uma costela: daria uma mão, uma perna,
tiraria o rosto, a cabeça, sacrificaria o equilíbio, a homeostase.

Ah, os impulsos criativos.
Vontades repentinas de conceber, criar através do mesmo processo pelo qual fui criado,
cópula intelectual,
fecundação inventiva.

E a incerteza socando com seus punhos tortos,
os dedos deformados de talidomida -
um corpo-resma de ossos brancos,
esperando a assinatura da ponta afiada
de um compasso que você usou em mim.

Esse compasso que não sei se existia.
Por acaso não fui criado pela onisciência singular dos dedos divinos,
que dispensam qualquer auxílio?

Não seja delicado demais -
indelicadeza de ser delicado.
Foram mãos brutas que me fizeram, não foram?
Nunca teve medo de negar.
Agora sei que é obrigado a temer:
grito publicamente, ultrapasso os limites que impôs,
alcanço sua vista, seu olho, sua boca, sua impaciência,
pela primeira e única vez.

Será que vai me apagar com essa borracha
de sujeira mal-criada?

Um arrependimento a essa altura de nada adiantaria:
Você pode ler a consciência, a inconsciência,
todo o futuro - a próxima ação.

Tanto quanto uma gota de tinta,
sou tão completamente ignorado
que sequer lembra (lembro?) meu nome,
descartado em alguma lata de lixo
com outros nomes acidentais,
ideias descartadas,
personagens de um romance que morreu no cérebro.

Ainda assim, inutilmente
espero que algum dia consiga te fazer(-me) lembrar que eu existo.
Porque não me resta alternativa:
é a única maneira de saber se algum dia cheguei a existir.
Ou algo próximo disso.

Humildemente,
                      
                       P.M. 




_Gabriel Resende Santos_


Imagem: Self-Portrait, de Francis Bacon.

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