a tempestade da alma

19:10





meu tiro
vai partir o céu

nublado e ofegante

odeio conviver
com a inabilidade

prefiro me deslocar
para longe
para uma cordilheira

onde o amor
tem cheiro rupestre

e os verdilhões voam
sem temer a morte

como seria bom
viajar

inalar sem fim o odor
do campo

esse antídoto
para a desordem do cérebro

viajar para onde eu possa
ainda sentir calafrios
ao tocar o caule das macieiras

e o fim não me encontraria
o fim não me desejaria

o fim se limitaria ao fim
por saber que lá
não haveria início

não
nada

amarraram meus pés
à relva rubra
onde assinei meus dias

deram-me de beber
o suco incolor da alma

e aprisionaram-na
no meu corpo livre

maldita
verdade da tristeza

maldita
verdade da morte

maldito silêncio
sem deus

sem fim

meu tiro

sem fim

medo

nublado e ofegante

céu
partido o tiro

sem fim

_Gabriel dos Santos_

Imagem: The Red Creeper, de Edvard Munch.

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