escrito no chão

23:31




me arrastando
qual verme perfurado
qual kafkiano riacho de banho
me arrastando

meus braços se arrastam
antes das pernas
a cabeça gruda no solo liso e poeirento
tento explicar o 'arrastar-se'
de modo empírico ---
a busca eterna pela união com o chão
que nos criou
com amor e desvelo

quero o colo de meu tio
ele já se juntou ao chão
quero o colo de meu pai
sempre esteve junto do chão
quero o colo de minha mãe
a histeria do chão lhe corrompeu
quero meu próprio colo
mas não sou capaz de me contorcer
como os vermes do chão
magoados
condenados
arfando
babando
admiráveis.

abaixo do chão
só há vermes
os mais próximos
os mais distantes
os vermes do inferno
nós somos os vermes do céu
o céu é o que nos cola ao chão
a gravidade – eis a justiça divina
nos impede de enxergar a escuridão
cega
que abrange um império de vermes
infelizes paupérrimos vulneráveis
sob os pés sujos dos meninos

a mesa está afastada
me arrastando
procuro o azul guardado num jarro
o azul censurado
algo tão sério não pode ser azul
o azul é o mar
o azul é o céu
o azul não é sério
só é sério quando escurece
ou enrubesce.
estou preparando o azul
para que ele se torne verde dentro de mim
mas algo está me impedindo

amor

algo está me impedindo de fazer
tudo isso tudo isso tudo isso
algo chamado arrastar

todos amam

o azul o azul o azul
eu quero o azul
o azul dos olhos do demônio

eu também te amo
eu te amo

o azul cai da minha mão
o verde se contorce de ódio dentro de mim
o vermelho tenta sair das minhas narinas
o branco do solo me recebe
e o preto da minha alma explode um milhão de gritos
enquanto minha boca mal se abre
esperando uma resposta do sistema nervoso que
se contrai

tenho finalmente o aspecto de um verme
um verme que, se contorcendo,
ri e chora
alcançado o chão
as mãos os pés as vértebras
se arrastando em busca

em busca de quê?

em busca.

_Gabriel dos Santos_

Imagem: O Gigante, de Francisco de Goya.

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