carbamazepina

19:56




hoje vou dar uma aula sobre amar.

estou muito nervoso.

missão ousada para um principiante
os velhos camaradas diriam
batendo suas canecas cheias de cerveja
rindo enquanto a espuma
escorre de seus dentes podres.

mas aqui não há marinheiro, não há barba azul
embora haja cabelo azul, laranja, vermelho
até multicolorido.
saem os piratas, entram os alunos
criaturas vis, cruentas, sanguinárias
vampiros sedentos pelo sangue de seu novo professor
sem pós-graduação.

estou muito nervoso
um pouquinho intimidado

lanço a vista ao redor e tento encontrar
o material a ser usado na aula.
aqui estão meus cadernos,
abarrotados de poemas, epístolas arrebatadas,
aqui estão meus compassos, estojos, amostras.
tudo exceto o principal.

onde está a carne de amante?
que organização inadequada, eu reclamo.
e os alunos me respondem com a primeira coisa que não seja urro:
sim.
um sim seco, brutal, um sim de quem não sabe mais falar.
aprenderam a arte suprema de desaprender.

repito: nervoso.

como não há material disponível
serve um empréstimo.
não há empréstimo?
lamentável.
esqueci que amar é uma tarefa muito complicada
e que me chamaram justamente para lecioná-la.
eu sempre me resolvo pelas coisas complicadas.

serve um cadáver

tragam-me o corpo
trouxeram rápido
sempre são prestativos
quando os fins são imprevisíveis

evitando demoras
posiciono sobre a bancada
a carne vacilante de um passado
mais vacilante ainda.
tudo está preparado, os alunos estão
esperando esperando esperando esperando
e sem esperar mais nada
meu nervosismo quase escapando ao invés das palavras
dou princípio à minha aula.

as juras de amor, o primeiro carinho,
a sedução, que é opcional,
os abraços, as mãos dadas
explico tudo
de modo breve, é verdade,
mas nada que não possam me perdoar.

estou nervoso

então começam as vaias
daqueles seres sabe-se-lá-como vivos
seres existentes por piedade de deus
não fossem as normas, aqueles animais
atirariam suas carteiras contra minha cabeça.

tento controlá-los
mas só recebo escárnio
saliva molhada
junkers de papel
que sobrevoam minha cabeça indefesa

meu nervosismo já é descontrole

furioso, eu pulo para o tema principal
e beijo uma mistura de lábio e suor
que pingava sobre o rosto morto.
e aponto e gesticulo
enquanto meu rosto persiste colado
àqueles lábios tranquilos.

ouço o silêncio
ouço a lágrima
gotejando

ergo-me

estou nervoso

e você também está nervosa
se pudesse abrir seus olhos,
não abriria.
se pudesse abrir seus lábios,
não abriria.
talvez reclamasse:
sou só peso morto?

os alunos parecem atentíssimos dessa vez
assumiram outra postura
parecem esperar pelo feérico
algo que eu achava
que não pudesse oferecer.

súbito

nervosismo

você
dê-me sua mão
minha amante
meu amor

você
você que é sem vida
eu te beijei novamente
você que não quer ser você.
você, que é só primeira letra
sei do que vem depois de você.

você, você, você,
risadas
e amor

eu estou tão nervoso
eu estou amando tanto
amar é nervoso

quedo
e meu corpo pesado
queda por cima do cadáver
e nós dois nos amamos uma última vez
no chão frio
não como quem ensina ou aprende
mas como quem esquece de uma vez
apenas para sentir esse amor transbordar das veias vivas
ou da epiderme congelada.
não importa – eu estou morto desta vez
e você também
e estamos juntos desta vez
conectados como estes versos
por um vínculo de morte.
você, cadáver, você, você, K, que
era.

...

os alunos berram, urram
como gorilas tentando se soltar de suas jaulas
usando suas carteiras como apoio
lambendo a baba que sai de minha boca
xingando batendo gritando
de um jeito ancestral

o encontro com o feérico
expresso.

chega ao fim minha aula:
era o que eles queriam ver e
aprender.

sexta-feira vou dar uma sobre morrer.

_Gabriel dos Santos_

Imagem: Vampire, de Edvard Munch.

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