patrimônio íntimo

12:55



eu te amo. despedida frágil, subjugada, de mãe vencida pelo tempo e dor, entregue à sua perdição consentida. eu não inovo e me despeço assim mesmo, as palavras lânguidas retinindo na boca seca. o amor não devia emudecer? por que continuo construindo edifícios nos quais não posso morar, como se fossem vasos de cerâmica sem valor senão o afetivo? assisto à demolição de todos os edifícios, condomínios, complexos. ainda resiste minha estrutura, graças à letra libidinosa, que oferece seu auxílio em troca de servidão. até o fim, esta estrutura incerta, sintática, vai amaldiçoar mesmo os sonhos que ainda reservam alguma cor; sinto que as teias enodoadas de desprezo, de esquecimento, de repulsa ressentida, estas vis e corruptas teias abraçam meu corpo de um jeito que você nunca abraçou. posso me esquecer dos prédios, entregando-me às teias. facilmente. mas deixar de amar, fechar os olhos que insistem em empurrar pra cima as pálpebras céticas. dificilmente. o homem da demolição já chegou. entrou no apartamento mais alto, despiu com serenidade suas roupas e teu desejo virou concretização. o demolido fui eu: você pagou a conta depois. continuamos a nos ferir de dentro de nossos apartamentos – você aí em cima, inalcançável, talvez no décimo quinto andar. eu aqui embaixo, no terceiro, menor que uma formiga, menor que o chão, tentando inutilmente arremessar uma coisa inominável no teu rosto impassível. e sempre errando de alvo, faria questão de me dizer se descesse. a culpa é tua, que me cegou e deixou totalmente incapaz nos esportes da paixão. quer descer pro play pra gente brincar? me pergunto se não te encontraria lá, no seu canto, olhando firmemente algo sem firmeza. este tipo de imagem nunca desmorona: mesmo que viesse a ruir, tu há muito tempo foste tombada na minha rua.

_Gabriel Resende Santos_

Imagem: House at Dusk, de Edward Hopper.

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