o nome que eu tentei gritar

22:17


ele vai invadir alegremente a sua casa, pela porta esquerda, deslumbrado com a riqueza oferecida aos seus olhos gatunos. ah, você não vai se dar conta, não vai saber o que fazer. vão bater na porta, bater nas paredes, na janela, no banheiro, nos espelhos (ah, como batem nos espelhos!), e as rosas vão chorar aos berros porque o fim finalmente voltou pra casa.

alguém beijou as mãos do fim? um sonolento grito, leve, fraco, que não chega a nenhum ouvido, faz-se sentido. grita-se com mais força esse fraco grito, que apenas se enfraquece cada vez mais, entristecido. e inutilmente grita o grito pela força que falta em si mesmo. ah, como é infeliz esse grito. deve ter desistido de seus sonhos. de sua vida.

escuta-se o cheiro de amor queimado, que quando tragado engole a alma de seus pulmões. ah, os seus pulmões buscam gritar, buscam reafirmar sua inocência, e só conseguem tossir. as tosses são tentativas. então você tenta estrangular a tosse, porém não é fácil traí-la como a um simples soluço. ah, a tosse fica mais forte, a tosse fica mais sufocante, a tosse fica mais apelativa, a tosse fica mais romântica. a tosse sente um profundo desgosto. que tristeza não ser nada além de tosse, que desilusão nunca ser grito.

o que você ouve senão teus ouvidos gritando? ah, eles querem morrer, esses teus ouvidos suicidas, eles querem se entregar a um amor eterno, esses ouvidos que gemem. estando próximo às ondas assustadoras, não tente nadar contra elas, evitar seu próprio destino. o caminho já está preso entre essas sensíveis marés. então apenas espere a água afogar seus pés, ao passo que o ritmo lento dos fracassados produz ruídos de insatisfação; você se ouvirá perdendo o controle. em silêncio.

_Gabriel dos Santos_

Imagem: Kreidelfesen auf Rügen, de Caspar David Friedrich.

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