medo de sonhar

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o nada me consome outra vez. sem voz, sem trajes de gala, o nada me consome. se eu pudesse ver seu rosto, oculto sob as máscaras da vergonha, se pudesse tocar seus lábios, o que sentiria além de íntimo amor disfarçado de repulsa? eu morro afogado de dor, mas também sofro de fascínio: o nada tem o corpo da mulher que mais desejo. as suas curvas me parecem primorosas, urdidas pelo mais talentoso artista. o nada tem um quê, me parece agora, tem um quê de rembrandt. ou seria hopper? o nada não é a solidão urbana deste, a solidão das pessoas, a solidão egoísta: é a solidão em seu estado puro, a consentida solidão da natureza. o nada também é natureza-morta, embora ele se recuse a morrer. o nada se deu o direito de ser o nada assim que alguém criou o tudo. mas não sei se o tudo foi criado pelo nada ou se o nada foi criado pelo tudo. às vezes parece que não encontramos nada no tudo, e às vezes o que parece nada esconde tudo. a beleza tem tudo a ver com o nada ou nada a ver com o tudo? e a morte? o clichê diz que a morte é o começo do nada, mas para mim é o meio do tudo, que engloba o fim do tudo e o começo do nada. estamos todos no início e a morte é o começo. começo do nada, que só acaba no fim do tudo. e depois do fim do tudo vem o nada, que já havia acabado. e eu? eu acabo assim como ambos. não me dou o direito de ser poupado e continuo a ser consumido vorazmente pelo nada, seus olhos sem retina cintilando na escuridão do tudo. por que o tudo nunca muda o turno? sempre tão sombrio, tão obscuro, tão tudo. o nada já soa mais como um inquilino indesejado, uma verdade atrás de toda a mentira. o nada é a declaração de amor que falhou e a doença do moribundo; a sorte de quem ganhou e a desgraça, o infortúnio. ele tem um quê de goya, tem um quê de friedrich. o tudo já é tão abstrato, misterioso, inominável. no entanto, embora revele seu rosto fantasmagórico na rotina repleta de imprevistos, o tudo é ignorado. ah, como nós odiamos ambos, o tudo e o nada. como nos odiamos. e eles se vingam de nosso rancor. o nada, por exemplo, não desiste de me consumir. o tudo, mais solidário, até me protegeria se eu não fosse tão inimigo dele, se eu não contestasse tanto seus propósitos existenciais. agora fuma seu cachimbo e ri gargalhadas cruéis, enquanto o nada prepara a corda que se agarrará ao meu pescoço quando todos, inclusive o próprio tudo, dormirem.

_Gabriel dos Santos_

Imagem: Detalhe de Full Fathom Five, de Jackson Pollock

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