O tímido & outros textos envergonhados

19:33

O tímido



perfaço um tímido

ele germina da rua
aprende a escutar mais que falar
levantando-se apenas pelo
inesperado dom divino

perfaço um tímido

declaro-o rei
ele só ouve o bobo - não ordena
convive apenas porque
não espera nada além
do ouro que tem
sem querer

perfaço um tímido

pego de surpresa
o coração bate emudecido
piscando com vergonha na íris
se estivesse triste, nada de lágrimas:
antes os tecidos da corda


perfaço um tímido

esqueço seus pés no vácuo
por enquanto não anda nem escuta -
criatura estoica e prática
entrelaça as mãos
disfarça o embaraço
e me sorri com pureza.

meu tímido:
meu eterno estranho.



Problema heteronímico

meus heterônimos se recusam a escrever.
estão sem criatividade sem vontade sem nada.
um deles está muito ocupado com os estudos,
o outro contente demais para escrever poemas
e meu terceiro embora apaixonado anda lendo marx.

talvez seja necessária uma mutilação
para que eu me livre desses meus heterônimos.
mas sem eles eu fico sem palavras sem nada a dizer.

esses malditos progridem muito rápido.

Eu sou muito estranho

eu sinto muita estranheza aqui.
cadê a sinestesia?
cadê a imagética?
só vejo paradoxos.

eu sinto muita estranheza.
cadê os mil beijos perdidos?
cadê a minha vontade de gritar?
eu estou muito estranho.

enxugue uma estranheza minha
querida
e eu enxugo todas as estranhezas do mundo
por você.

feios excluídos desagradáveis
sombrios doentes fodidos:
nós podíamos ser
juntos.

mas se a estranheza não te interessar
tudo bem.
isso só me faz mais estranho ainda
por te querer.

_Gabriel dos Santos_

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