MARCIO MARKENDORF, ENTRE DESILUSÕES, DESAMORES E DESESPERANÇAS

22:43

Marcio Markendorf, poeta catarinense ainda inédito em livro, com exceção de alguns textos publicados em antologias, é uma voz poderosa embora indefinida. Cantando em sua obra toda a tristeza do cotidiano, da solidão urbana e da desilusão amorosa, Marcio Markendorf reflete sobre o absurdo de sentir numa sociedade completamente indiferente ao indivíduo e às suas angústias.


Ora conformados, ora inconformados, ora desesperançosos, ora ingênuos: nos seus textos o leitor encontra, segundo o próprio poeta, a tensão entre o verdadeiro e o falso, o biográfico e o literário, o documental e o sentimental.
As influências femininas de Ana Cristina Cesar, Clarice Lispector, Hilda Hilst e Sylvia Plath (sobre quem escreveu sua tese de doutorado) evidenciam-se na voz por vezes andrógina que emana das cordas incertas de sua literatura, emaranhando o leitor num labirinto de sentimentos indeterminados. Quando o lemos, aquilo que de antemão assimilamos como simples desabafo pode suavemente se transmudar em reflexão existencial. Essa qualidade transmutável de sua linguagem é justamente o que faz de Marcio Markendorf um escritor tão interessante.


Amplexos.







a plataforma


dear:

estou em tempo de viagem e a paisagem lá de fora é um movimento. o cenário interno é o de uma estação. não é porque ninguém me tenha que peguei o trem. estava apenas esgotado da mesma espera de linguagem. e também da coragem de o tu assumir como trajeto a linha que inventei. vi muitos descarrilamentos sem sensacionalismo algum, mas com as paixões acima do limite de velocidade. será que a culpa foi do paraíso perigoso que a palma da minha mão mostrou? vai ver muitos têm mais medo da chegada que da partida. dar o start é muito fácil. controlar a responsabilidade é que é difícil, sobretudo nos cruzamentos e nas paradas não-obrigatórias. então: fiz as malas de novo. tudo fica no lugar, mas eu vou. não me espere, não sei quando eu volto. quero que os band-aids parem de cair da carne ainda úmida e inteiramente aberta. e sigo pela luz só para ver se encontro os túneis no final da estrada.



gramática

dear,
a palavra começou a existir. a palavra começa. a palavra peça o que começou de mim. e do que não foi feito ainda, não impeça. pode ser um adjetivo monarca, um transitivo de verbo. mas me complemente, por favor, nem que seja pela ponte prepositiva, o adjunto adnominal, a oração subordinada. dê suas ordens, seja imperativa, exclame! mas clame por mim o que quero. sou um sujeito. e quero, desejo um predicado. talvez um verbo de ligação que me coloque em outro estado (o do amor). não assim, entre vírgulas, uma explicação para qualquer coisa que tenha vindo antes. cansei do futuro do pretérito, da fantasia; cansei da hipótese, da ideia subjuntiva; também cansei do passado. perfeito ou imperfeito não sei qual pretérito dói mais. pesa. diga então, qual advérbio vai definir esse pedaço de tempo. e não me venha mais com esses artigos indefinidos, cheios de assuntos genéricos. tenha coragem de fechar o código, de limitar o discurso, cercear aquilo que escapa ao substantivo. não me venha falar de abstrato, concreto, definições metalinguísticas. eu quero os pronomes, as pessoas do discurso, as ações dessas pessoas no mundo. eu quero o eu, o tu, as quantas coisas que o nós pode fazer a sós. então por que não me começa a existir? dê-me uma palavra que eu serei o que me nomeia. pois será tão bom deitar de noite, ser o signo mais arbitrário da linguagem, provavelmente o mais feliz.



leãodade

dear,

ao final do dia, preciso esfregar a carcaça do leão no asfalto, ver a fera gemida, a pele rasgada e a carne sangrenta. depois, esfrego a arcada dentária, os ossos e a juba na minha cara para dizer: eu venci. e mesmo vencendo eu não me sinto melhor. vencido, o leão não é pior. o bom seria não precisar segurar na garganta a selvageria, o surto felino que vem das entranhas e das entradas do menino-homem. às vezes, às vezes o leão morde o homem. da ferida, da dentada marcada, vai-se um naco do corpo-menino, aparece o pus e a enfermidade. viver é uma doença. [seria quase a morte não fosse a vida]. eu me aguento na loucura que tenho. tenho vontade de gritar, não grito. tenho vontade de chorar, não choro. tenho vontade de correr, corro. deixo atrás de mim as pequenas epifanias das esquinas, dos calçadões, dos bancos de ônibus. atrás de mim, deixo as sensações mais profundas da vida. aguento-me na parte rasa do dia para que ninguém perceba a ferida. eu sangro. o leão mordeu-me e precisei fugir. mas fui forte outra vez. em silêncio, a fuga foi no silêncio do menino. e o homem, desapontado, diz: estou perdendo a conta de quantos leões de campanha precisarei esfolar na porta de tua casa. eu volto vivo e não sei quantos leões. é uma arena este lugar. uma casa deveria ser um lar. apenas sinto-me seguro na hora que você dorme, na hora que morre, na hora que me cospe pra dentro. ao final do dia, eu te engulo de silêncio para me sentir seguro. já não aguento te aninhar na carcaças de leão e gemer baixinho com medo desse teus medos tão meus.



Marcio Markendorf é Doutorado em Teoria Literária pela UFSC e coordenador do curso de letras das Faculdades Borges de Mendonça. O poeta publica suas prosas poéticas em Incorrespondências, além de dividir comigo o espaço Os Escritores Invisíveis.

_Gabriel Resende Santos_

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