Dois poemas

19:25

o apanhador de problemas

quebrei o espelho de meu pai
e hoje tenho uma função
ao contrário daquele malandro
ao contrário daquele desleixado
ao contrário daquele perverso
ao contrário daquele isolado

hoje sou um apanhador de problemas
(apanhador? por que não catador?)
e não coloco mais as sobras de comida em meu prato
porque prefiro o gosto do plástico.

todo dia infalivelmente da manhã à noite
procuro-os os problemas em todos os lugares:
nas reuniões de famílias
nas festas de crianças
nos prostíbulos nos velórios
nos teatros nas avenidas nos rios
porque catar esse tipo de coisa tão copiosa
é muito fácil.

o amor incorrespondido?
meu
a miséria?
minha
as notas ruins na escola?
meus também
a verdade interpretada como mentira?
a possuo desde sempre
tal qual meu bem mais valioso
que é o nada.

o nada é mais meu que o tudo
embora eu goste muito dos tudos também
os tudos indecentes
os tudos pobres
os tudos errados
os tudos quebrados
tenho muitos tudos mais tudos que nadas
pois os nadas são mais raros:
só existe um nada para cada pessoa
e ele vem conosco quando nascemos.

sim claro que há mais gente como eu
que leva a sério meu trabalho e me faz perguntas.
a que mais ouço é se eu divido os problemas.
respondo invariavelmente: nunca!
o egoísmo é meu também.

*
um velho velho mundo novo

toneladas e mais toneladas
quanto meus braços aguentam?

o fim nos salva
o infinito estende
suas mãos
(seus pés)
e nos puxa da cons(?)ciência
arrebata-nos
(arrebenta-nos)
com seus milhares de olhos
muito lindos
(muito tristes)

enquanto sangra o robô
as falhas de comunicação da
humanidade
(robótica)
sobrevida da ideologia parva
que ainda conserva
algo dos tempos novos
(tempos vivos)

toneladas e mais toneladas
quanto meus braços (encéfalos) aguentam?

_Gabriel dos Santos_

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